28.1.12

Da série - bilhetes rasgados achados na máquina de lavar...

Minha mente oscila entre o artista castrado que grita dentro de mim e o vazio confortável do cotidiano. Entre sonho e realidade. Entre pornografia cibernética e a bela donzela que passa noites ébrias ao meu lado. Ela é demais... Em todos os sentidos. Sou viciado nela, e - ainda bem - ela também é em mim. Ouço seus pensamentos a léguas de distância, tentando ler os meus. Mas meu crânio é blindado, ou pelo menos eu prefiro acreditar que ele seja. Embora eu saiba que é pura fantasia da minha cabeça. Da minha etérea e fértil cabeça. Será que eu renovo com a Record? Será que eu deixo rolar? Taí uma pergunta pro amanhã responder. Por hoje, a insanidade me dá saúde. A felicidade me basta.

11.1.11

A ARTE DE ESCREVER

Escrever é como estar na cama com a mulher ideal, amando-a sem medo algum das conseqüências que suas palavras possam causar. Não é algo fácil de se conquistar. Primeiro porque a mulher ideal não existe, ou existe em tamanha quantidade que a gente acaba se confundindo. E segundo que se a gente viver sem medo, a gente morre – já dizia nosso querido: “Darwin.... Agora é pra valer! Eu fiz o meu melhor! E o meu destino, eu sei de cor”. Pequena observação: esse Titães parece meio descabido no momento, mas se você deixar sua mente fluir para o abstrato, vai ver que pode ser legal.

Escrever é como pintar os seios da mulher amada com o próprio semêm – acho que essa frase exprime melhor o que eu queria dizer no parágrafo anterior. E ela torna a escrita algo tangível. Afinal, só é preciso saber curtir seus gestos para dominar sua arte. Aliás, experimente esse negócio da pintura nos seios. Ele também pode ser legal, como algumas das músicas do Titães - umas cinco ou seis, na verdade.

Escrever é só ter compromisso com sua própria natureza. E isso, sem dúvida, é muito legal. Porque quando você escreve, você diz: “Com licença mundo, um minuto por favor que agora eu preciso me manifestar.” E aí você bota pra fora um vômito com sabor de tuti-fruti na cara disforme de tudo que te cerca e grita que é uma pessoa livre! Para, minutos depois, pensar: “Ok, de volta à vida real”, e então vociferar uma série de ‘porfavores’, ‘muitobrigados’ e ‘mildesculpas’ pouco sinceras a torto e a direito.

Bukowski escreveu, pouco antes de morrer: “Viver é como engolir baldes de merda”; anos antes, mandou: “Escrever é o grande psiquiatra”; e num de seus poemas antigos: “É fácil ser poeta. Difícil é ser um homem”. Bem, eu estou aqui tentando fazer malabarismos com as palavras só pra não ter que pensar nos problemas fictícios que acabei criando pra me ocupar, logo vou ter que fechar com o Velho Safado mais uma vez. Só pra ele não se sentir esquecido, pois nunca falei dele nesse blog.

Escrever é fazer um intervalo da realidade. Porque o homem, quando escreve, se utiliza apenas de tinta e papel - ou um teclado e uma tela de LCD - para criar toda uma nova dimensão. O escritor é aquele que domina os códigos cifrados da natureza e os decifra a céu aberto, para que todos possam ver as vidas que levam sob um diferente aspecto. De preferência, de um aspecto mágico.

Escrever é buscar dentro da cuca toda a mágica que está ausente fora dela; ou toda a mágica que nós, pobres mortais, temos dificuldade de enxergar.

19.10.10

A ARTE DE SER ARTISTA

A arte nunca nasce da felicidade. É sempre algo que você faz pra fugir do inferno que está vivendo, pois quando você está verdadeiramente feliz, nada precisa ser feito. Ninguém compõe óperas quando está acompanhado de amigos e mulheres lindas numa praia deserta. O máximo que se faz é celebrar o que já está feito e ter algumas idéias pros próximos projetos. E esta, meu queridos, é a melhor etapa de qualquer arte que se faça. Assim sendo, só escrevo nesse blog quando me sinto um inútil, e ainda assim a coisa não melhora, pois ele vive às moscas. E outro dia eu escrevi sobre “A arte de matar mosquitos”... Desse jeito não vão sobrar leitores - o que não é tanto um problema, já que isso aqui é apenas uma punhetinha intelectual... O pequeno prazer do exercício como caminho para um gozo solitário.

Ok, voltando para a viagem inicial. Ser celebridade é algo muito diferente de ser artista, certo? É fingir que não há inferno. É por isso que as pessoas gostam das celebridades, porque elas lhes dão a esperança de que talvez não seja necessário haver inferno. Mas é claro, é tudo caô. Vivemos num inferno - pelo menos todos nós aqui da babilônia. Incluo neste saco as próprias celebridades, e é aí é que está a raiz da hipocrisia dessa porra toda. Desculpem, estou falando feito um adolescente. Voltarei ao meu ‘literalismo’ de merda num instante.

Estamos no inferno, amigos. Não há descrição melhor para o Rio de Janeiro. Calor, caos, dinheiro, beleza, fama, luxúria, vaidade e inveja. É a ‘roliúde’ brasileira, ou algo próximo disso. Lá na ‘roliúde original’, pelo menos o entretenimento é tido como uma ciência industrial. Aqui tudo é feito meio de qualquer jeito. Maquidonalde cultural. Não há escola pra nenhuma arte e os poucos talentos que existem não são lapidados, logo se perdem pela falta de incentivo ou pelos programas de auditório.

Acho que estou falando demais... Cof, cof, cof.

Agora, quem sou eu pra criticar o ‘sistema’? Um merda qualquer que tirava nota boa em redação quando criança, nada além disso. Se eu fosse um artista de verdade, não estaria nesse blog pitoresco, estaria escrevendo uma coluna no “Globo” semanalmente. Tipo, contracapa do Segundo Caderno. Mas lá tem neguinho muito mais foda do que eu, porra. Pra começar, ninguém fala palavrão. Não pega bem. Tem uma mulé que escreve sobre os gatinhos que sobem em árvores e não conseguem descer, da capivara que morreu afogada no arpoador, dos tatuís acasalando durante a primavera... Tem um maluco que sabe de todos os discos de todas as bandas de todas as épocas do mundo todo. Tem um outro que eu nunca consegui passar do segundo parágrafo, mas que deve ser bom. Eu que sou um bosta de não me interessar. Jabor e Joca, vocês não só estão salvos como têm todas as minhas honras, de verdade. Mas se eu fosse um de vocês e tivesse que escrever um artigo pra amanhã falando sobre o meu dia de hoje, seria mais ou menos assim:

TRAGÉDIA DA VIDA PÚBLICA

Quarta feira, 7 horas da noite. Clube Federal, Alto Leblon. Pelada dos Artistas. Supostamente, um treino para ‘famosos’ que jogam jogos de futebol beneficentes – quanta arte e solidariedade juntas! Nada mais adequado pra uma cidade que tem o Baixo Gávea como pólo cultural. Dentre os jogares que aqui estão, aqueles que participam da maior quantidade de festas de 15 anos são escalados pra ‘Copa do mundo dos artistas’, que acontece à custa dos nossos impostos, todos os anos, em alguma cidade aleatória do universo. Eles viajam, comem um monte de mulher, saem na capa da revista e ficam se achando mais bambambans que o vencedor do último BBB.

O engraçado é que cada um ali tem a sua persona. O comediante quer sempre fazer gracinhas. O galã vive com cara de mau. Quem não é nem uma coisa nem outra, tenta ser gente boa. Mas ali, pelo menos 70% acaba se mostrando marrento, mais cedo ou mais tarde. É a forma que encontram pra se defenderem em meio a tanta vaidade e vazio existencial. Têm aqueles que tentam imitar o Cristiano Ronaldo, fazendo firulas e caretas pras 350 câmeras dentro do estádio. A única diferença é que não há estádio, quem dirá câmeras. Somos um bando de pernas de pau querendo dar uma suadinha no meio da semana... Mas isso não entra na cabeça de certas pessoas de jeito nenhum.

Entre uma partida e outra, conversas triviais para descontrair o momento. Um fala que viu o Jesus Luz numa festinha por esses dias, tirando onda de chapeuzinho e charuto na área vip. ‘Fazendo estilinho’. Outro fala que se estivesse comendo a Madonna iria pra festa vestido de fralda, e que ainda sairia nas fotos das revistas com a seguinte legenda: “Fulano de tal, curtindo uma balada no seu novo look”. Todos caem na gargalhada e assim ficam por longos minutos. Ok, até que foi engraçado, mas não era pra tanto. O nome disso é ‘artistice’ - ou pelo menos é assim que eu chamo quando alguém que quer muito ser famoso pela o saco de alguém que já é muito famoso.

O assunto então ganha tônus. Alguém diz que a Madonna, apesar das plásticas e dos exercícios, já virou maracujá. Outro rebate com o dado de que ela é uma das cinco mulheres de maior notoriedade no mundo, e argumenta que só isso já lhe dá status pra ser comida. Fico imaginando de onde ele deve ter tirado esta teoria. Então vem de um poeta a metáfora de que o tal Jesus ‘ganhou na loteria’. Todos concordam, pensativos. Fico pensando que merda seria ser o Zé Pirú de alguém como a Madonna e ainda virar ídolo da classe ‘artística’ brasileira por isso - mas como sou o único ali a pensar algo do tipo, fico na minha.

As partidas se seguem, assim como os padrões. Alguém por favor me explique: por que quanto mais famosa a pessoa fica, mais mascarada ela se torna? É impressionante. E é impressionante como isso é alimentado por aqueles que orbitam ao seu redor. Uma indústria de monstros, essa é a nossa escola. E é bom passar despercebido por todos ali, de verdade. Não me sinto contaminado. Nada além de um cumprimento ou meia troca de palavras com os menos distantes. Gosto de ir lá pra jogar bola e observar. Observar o meio do qual faço parte. O tal inferno.


Sábado à noite, termino de revisar a coluna. Estou atrasado com o meu editor, mas como não tenho editor, tá tudo certo. Abro mais uma garrafa daquele vinho que estava em promoção essa semana no supermercado. Olho bem de perto pra mesa de madeira sobre a qual está o monitor e o teclado onde escrevo. Fico viajando. Ela é toda rajada numa cor entre o castanho e o cobre... É estranhamente linda. É algo que sempre estivera ali e eu nunca notara. Afasto-me e percebo que a mesa é toda linda, refletida pela luz do abajour, sob a fumaça de um incenso indiano. Acendo um cigarro. Estou no meu pequeno e isolado paraíso. Como eu disse, hoje é sábado à noite. Posso não ser nenhuma Madonna, mas sei dar minhas rodopiadas. Portanto, esqueço a mesa, o teclado, o monitor, o incenso... Cato o telefone e faço uma rápida busca em sua agenda.

Enquanto me visto, penso: quem sabe amanhã escreverei minha obra-prima. Ou depois da manhã, quando a ressaca tiver passado. Sinto as ressacas passando e eu ficando. Sinto as idéias passando e eu ficando. Sinto que preciso urgentemente dos meus amigos, de mulheres lindas e de uma praia deserta... Sinto que preciso me dar motivos, projetos pra serem celebrados. Sinto um vazio, mas isso já é normal.

29.6.10

A PEQUENA EPOPÉIA DO RITUAL NOTURNO


1º Ato:

Lavo o rosto com um gelzinho azul especial com cheiro de detergente francês e tiro as lentes de contato, que espremiam as bolas dos meus olhos pelas últimas 16 horas. Elas automaticamente se balanceiam e, através do espelho, vejo lá dentro delas enquanto escovo os dentes. Cuspo a água espumada com gosto de mentol e me sinto exteriormente limpo, embora com aquelas velhas sujeiras da personalidade. Ou o que quer que isso queira dizer.

Elas parecem vermelhas e cansadas, as bolas dos olhos desse cara que me olha. Ele tem olhos verdes, bonitos, no entanto os dentes estão amarelando. Tento ligar uma coisa a outra, e só consigo pensar na imagem de uma ampulheta flutuando em câmera lenta. Então suspiro um suspiro de, sei lá, alívio, mas percebo que estou mentindo pra mim mesmo. Não há alívio, o que há é desespero de saber que amanhã tem tudo pra ser igual a hoje e a ontem. Será mais um punhado de grãos de areia caindo em queda livre, e eu continuarei sendo esse ser desconhecido preso dentro do vidro... Até quando, porra?

Quando vou me acostumar comigo mesmo? Encontrar a plenitude ou pelo menos algo que se aproxime disso? Uma mulher perfeita: é pedir muito, Senhor? Eu quero tanto que acho até que mereço. Só que quando as candidatas aparecem, acabo mandando todas de volta pra casa dentro de poucos encontros – a maioria choramingando e me deixando mal. E por quê eu faço isso? Ah sim, essa é a peça do quebra-cabeça que está faltando. Nunca soube a resposta dessa pergunta, mas é inevitável fazê-la de tempos em tempos.

2º Ato:

Sem respostas, paro a trilha sonora melancólica que dá o tom da cena. Em silêncio, desligo a tela do computador e apago a luz do quarto. O coração da máquina fica pulsando numa luz azul. Enquanto deito para dormir, penso que estou baixando um filme e fazendo cromoterapia ao mesmo tempo. Cubro-me e respiro fundo.

Mais uma noite que você não vem, e eu me despeço pra mais uma jornada ao redor da realidade. Minha cama começa a levitar e fica ao mesmo tempo quente e fria, numa medida quase agradável... E eu fico com saudade do que nunca foi. Ou do que quase foi, mas se perdeu no ar. Aquela jabulani que bate nas duas traves e volta ao pé do zagueiro, então o juiz apita o fim de mais um tempo e a sensação é de eterna prorrogação. Sem disputa de pênaltis ou contagem de pontos.

3º Ato:

Respiro, respiro. Viro prum lado, depois pro outro. Tento me lembrar do que você escreveu no meu mural hoje à tarde. Imagino-te de maria-chiquinha, meias coloridas e aquele fio dental sobre o qual falamos antes de anteontem... Imagens se misturam e você sabe, splash em poucos minutos. Em sua homenagem é mais gostoso, dói menos.

Antes de adormecer, lembro que na verdade você não existe. Está longe, em Amsterdã agora. Fumando-me em algum coffe shop, com sua beleza e charme virtuais. Ou em Milão. Dormindo sozinha, pensando em mim, eu sonho. Ou em Nova Iorque ou na Cidade do México, num fuso horário distante do meu.

O despertador está marcado para às 11 horas de Brasília, como sempre. Amanhã teremos a tarde toda pra nos vermos no skype e nos prometermos o impossível. O real e o imaginário são os dois lados de uma mesma moeda, e sem um deles ela perde o valor. Duas pessoas viajando juntas transformam essa moeda em fortuna.

4º Ato:

Percebo que estou começando a viajar pra longe, deixo rolar. É pra lá que eu quero ir. Na sua direção. Tipo naquele filme de desenho animado em que o cara está sempre acordando num sonho diferente e tudo parece pra sempre sublime. É, você sabe qual é. Já falamos disso. Isso, aparece aqui debaixo do meu edredom e me abraça quentinho. Dá aquela risadinha que eu imagino que você tem e me faz sentir seu homem. Faz carinho, faz. Isso, assim.

O jegue agora descansa sob o sereno da floresta. Ele fugiu do cocheiro. Quer se livrar da carroça que vive presa ao seu lombo mas não consegue. E ainda tem um tapa-olhos desses que o impedem de enxergar o que acontece ao seu lado. Pra ele, o horizonte parece sempre inalcançável.

5º Ato:

Boa noite, meu bem. Vai com Deus se esvair nesse universo. Qualquer dia eu acordo com você aqui, em carne e osso. Qualquer dia eu acordo com você e quem sabe a nossa filha, longe daqui. Qualquer dia. Até lá, não deixe de me visitar, você é o meu segredo. Só quem sabe de ti sou e os meus deuses, minha deusa.

Minha deusa, adeus.

16.6.10

Fenômeno madrigal (foi o nome mais escroto que eu achei)

Você está deitado, há muito tentando reverter o funcionamento do liquidificador de idéias dentro da sua cabeça. Bate aquela leviana pra ver se acalma, mas só funciona por alguns minutos. Depois voltam os milhares de planos e projeções futuras, toda aquela balela inútil que amanhã você já terá se esquecido... E quando a coisa parece não fazer mais sentido, sua mente enfim cansa e você se desliga do mundo, passando a estar, de fato, numa realidade paralela, em vez de apenas construir uma existência que não é a sua. Ela é perfeita, esta nova realidade. Tudo nela faz sentido. Daí, por um breve momento, você abre os olhos e vê as paredes do seu quarto, sua mesa e seu computador dançarem como ondas no mar. Você passa a entender todas as coisas. Elas ganham significados. Tornam-se deslumbrantes. Estão fora da Matrix, por alguns instantes.

Você está absolutamente relaxado, e a prova disso é a enxurrada energética que subitamente te atravessa o corpo. É alguma sensação entre meditar, ter orgasmos múltiplos, ser escaneado por uma nave espacial e receber um santo. Talvez seja o próprio Deus te dando um carinhoso abraço de urso daquela forma que só o safado sabe fazer. É algo que te recarrega. Que te faz se sentir um 'escolhido'. É algo que clareia a opacidade da sua alma.

Daí você acorda e olha novamente pras paredes. Continuam idênticas, porém estáticas e você já não lembra direito pra que elas servem, e então pensa que talvez seja a hora de pintá-las duma outra cor. Azul, quem sabe. Tudo na verdade, continua igual, só que mais feio. Mais sem-graça.

Então você se pergunta que porra foi essa que acabou de acontecer, mas a tela branca continua te olhando cinicamente e você desiste de tentar responder-se, afinal de contas está frio, você está cansado e o sol acabou de nascer - o que te dá mais algumas horas de sono. Daí você deita novamente e começa a ouvir os pássaros e os lixeiros cantando, seu gato miando, cachorros latindo... E logo antes de pegar no sono, sua resposta é respondida com exatidão.

13.5.10

A ARTE DE MATAR MOSQUITOS

É rápido, limpo e indolor, pra você e pra ele. O pequeno filho da puta lhe arrodeia em busca de sangue. Ele quer posar sobre sua pele macia e cravar o ferrão por dentro da sua carne. Você ouve o zumbido infernal e se mantém atento, sem mover - no entanto - um dedo sequer. Estes cretinos agora estão sendo fabricados com antenas de última geração que captam as menores vabrações do ar. É preciso, portanto, paciência e agilidade. No momento em que o piranhudo posar em sua cabeça, corpo ou membros, (ou um pouco antes ou um pouco depois disso, na real não importa), agarre-o com sua mão superpoderosa e não o deixe escapar sob hipótese alguma. Caso seu bebê comece a chorar, o Ricardão saia de dentro do guarda-roupas ou a casa comece a pegar fogo, ignore solenemente. O importante é você achar uma torneira, abri-la e colocar seu punho cerrado sob ela. Em seguida, abra-o milimetricamente por alguns segundos. Depois, abra-o totalmente e observe feliz a cadência do inseto morto. Deguste sua vitória com um sorriso cínico. Sua mão e sua conscîência estarão limpos, e seu corpo, intacto. Você sabe, o mosquito que te morde é apenas uma fêmea grávida que necessita de proteína animal para fabricar o DNA em seus ovos fofinhos no intuito de propagar a espécie, mas que se foda! A vida é mesmo uma selva e estar nela significa lutar, logo tudo o que você deve fazer é proteger o próprio rabo da forma mais elegante possível. Viva à raquete elétrica!

INEVITÁVEL

Deu um trago no cigarro enquanto esperava a cerveja. Sentiu-se tonto e anestesiado. Feliz. Não completamente, é claro, mas o suficiente pra tentar sorrir. Sorrir não lhe parecia natural, logo fechou a cara, depois tentou relaxar o rosto e alcançou finalmente a cerveja que há tanto esperava. Coçou os olhos. Voltou para o seu canto para poder respirar consigo mesmo. Era sozinho que conseguia respirar aliviadamente. Fugir era inevitável.

12.5.10

Tratado sobre porra nenhuma

A natureza é bastante sábia. Ela dá ao homem um tempo de vida suficiente pra que ele possa compreender a si mesmo e nada mais. Mas o que cada homem faz com este tempo é problema de cada homem. A maioria coça o saco, vê TV e cheira o próprio peido enquanto sonha. Alguns vivem a sorrir e preferem não se aprofundar em questões mais complexas - estes também cheiram o próprio peido enquanto sonham. E muito raros são os que coçam o saco e, em vez de ver TV, se aprofundam no próprio sonho e no próprio peido. Engraçado, estes também cheiram o próprio peido enquanto sonham. Só que estes últimos, no final sorriem porque aprenderam algo de valioso.

Os ‘Últimos´ são aqueles que conseguem heroicamente compreender a si mesmos – mesmo que no final das contas estejam errados. São chamados assim porque essa luz que recebem vem por último. Depois de terem vivido toda uma vida, da qual só lhes restam vagas lembranças. Uma confortável sensação de poder metafísico toma conta do corpo por completo, anestesiando todos os traumas de infância e frustrações. Não sobra nada, você é o peido do Buda. O ‘ömn’ - sei lá como se escreve isso – ecoando no universo. Sem o fardo da matéria, você pode agora contemplar a imensidão da qual fazia parte e, enfim, compreender. É sublime. Por toda a eternidade, você será o peido do Buda, perfumando o vácuo universal.

Isso caso você seja um dos ‘últimos’, pois se não for, está fudido. Você simplesmente morre. Como uma calculadora de bateria fraca, seu pequeno cérebro começa a vacilar, cada vez mais e mais, até que a alma lhe abandona o corpo, que apodrece até ser inteiramente engolido por vermes. Haverá um funeral triste em sua homenagem e depois de poucos anos ninguém mais se lembrará de você. E logo em seguida, você voltará a vida na forma de um pequeno feto, uma lombriga nojentinha, como se houvessem apagado sua memória e recarregado suas baterias. Você terá pela frente outras dezenas de anos para ver TV, peidar e sonhar, e também para refletir, se lhe for viável. Será mais uma oportunidade de compreender e contemplar a si mesmo, e de acabar permanentemente com seu sofrimento.

Afinal, do que estou falando? Não sou yôgue nem espírita nem porra nenhuma. Eu nem acredito em ressurreição. Essa é só mais uma masturbação de palavras. Preferia antigamente, quando escrevia feito um amador e vivia como um profissional. Hoje, tento escrever como um profissional, mas vivo feito um paraplégico. Com uma cadeira de rodas sensacional. Eu: mais um jovem carioca, ao mesmo tempo ‘mutante’ de poderes duvidáveis e um aspirante a Dostoievski do Século XXII, definitivamente um subproduto qualquer da mídia insalubre. Deletérios e venenosos, é assim que somos todos nós que seduzimos algum público através de ideais vazios, e que com isso nos esvaziamos dos nossos próprios ideais. Poucos compreenderão o que digo, mas muitos acharão bonito. Não importa, eu compreendo e sofro, e então me divirto com isso. No final, sofro ainda mais, pois não há deboche no mundo capaz de consolar tanta miséria. Estou sendo dramático mais uma vez. Que se foda! Antes dramático do que superficial, este sempre foi meu lema.

1.4.10

10 things I do everyday (Dez coisas que eu faço todos os dias)

- or mostly everyday, without breathing: ( ou quase todos os dias, exceto respirar)


1 – To sleep, asshole. (Dormir, idiota)

2 – To piss. (Mijar)

3 – To drink something. (Beber algo)

3 – To eat something. (Comer algo)

4 – To brush my teeh. (Escovar os dentes)

4 – To drink Alcohol, asshole. (Beber algo alcoólico, idiota)

5 – To reed something. (Ler)

6 – To smoke pot. (Fumar maconha)

7 – To take a shit. (Cagar)

8 – To exercise my body. (Exercitar meu corpo)

9 – To take a shower. (Tomar banho)

10 – To write something. (Escrever algo)

11 - To play with my dick. (Brincar com o meu pau)

OBS: Amigos patriotas, não fiquem revoltados. Acho que fiquei esnobe não sei porque e me deu vontade de escrever em inglês. Foi mal.

6.2.10

Ao Deus dará - Capítulo I

Acordei num salto e olhei a hora: 10:34! "Filho duma puta!!!", gritei bem alto, dei um bico no rádio-relógio e saí em disparada pelo calçamento úmido da minha ilha querida, com o mochilao vermelho sobre as costas. Era para ser um cochilo de apenas 45 minutos, mas obviamente o aparelhinho maldito nao despertou, e assim perdia mais um vôo em minha vida - este marcado para às 9:20 da manha do dia 05 de dezembro de 2009. A viagem já comecava mal. Pra piorar, ninguém da Gol me atendia e a bateria do celular estava acabando, logo nao perdi tempo e entrei no primeiro táxi que me apareceu pela frente. Rumamos para o aeroporto, e no momento em que a atendente Jordana Amorim atendeu-me desejando um bom dia, a bateria finalmente foi pro saco e fiquei falando sozinho. "Filho da puta!!!!!!", gritei novamente e dei um soco no banco de trás do carro. O motorista me olhou de rabo de olho pelo retrovisor. Pedi desculpas e escarrei ódio pela janela.

Paguei os quase 70 merréis da corrida e corri para o curral da Gol, onde uma atendente simpática com olhos verdes extraterrenos conseguiu me encaixar num vôo para o final da tarde, sem nenhum custo adicional. Mais uma vez, meu anjo da guarda falou mais alto do que as probabilidades mundanas, e assim, num suspiro aliviado, sentei-me para um café de 5 merréis e me pus a observar o movimento. A ressaca era das brabas, agravada pelo estresse recém-passado. Em algumas horas dali, deixaria aquela cidade por um tempo indeterminado, para um rumo indeterminado; Minha única determinaçao era me afastar de tudo e de todos que conhecia em busca de algo novo.

Olhando em volta, comecei a sentir pena das pessoas. Da maior parte delas, infelizente. Da maior parte do trabalho que elas faziam, precisamente. Das merdas a que elas se prestavam, basicamente. Senti pena dos garçons, que explicavam como era cada prato e o custo deles, dezenas de vezes ao dia, para burgueses estúpidos a quem ninguém pode ter vontade de servir. Senti pena dos vendedores nas lojas, que transformavam suas preciosas vidas em peças descartáveis da engrenagem fria e sistemática do capitalismo. Senti pena das aeromoças, que escondiam por trás dos sorrisos maquiados e dos cabelos escovados a mais selvagem das sexualidades. Senti ódio de todos os estabelecimentos e instituiçoes que ofuscam a imprevisibilidade das pessoas.

E, ao mesmo tempo, senti gratidao e orgulho por nao fazer parte disso - ou melhor, nao totalmente. É claro, estou preso nesse mundo como todos vocês que me lêem agora, e sou obrigado a ganhar meu próprio sustento. Mas acho que encontrei uma boa maneira de tirar proveito da situaçao. Eu e o trabalho nos damos bem, graças a Deus. Deus. Deus abençoe a arte cênica e a si mesmo, por cuidar de mim e depositar minha mesada sem atrasos todo dia 20.

Pensei também no cinema, minha maior paixao e o motivo maior da minha frustaçao profissional. Pensei nele com um sorriso singelo, sem ansiedade. Sei que quando tiver que ser, será. Enquanto isso, que venham as viagens, as peças, as novelas, as idéias mirabolantes e as mulheres. Ah, as mulheres. Elas estao aos milhoes por esse mundo, e uma hora ou outra há de cair uma das boas em minhas maos novamente. Enquanto isso, peito aberto para a vida.

Foi com essa sensaçao que me despedi do Rio de Janeiro, enquanto o Boing 737 branco e laranja se perdia por entre nuvens surreais. Tive um pequeno flerte com Francielle, a mais jeitosinha das aeromoças, e poucas horas depois posávamos em Buenos Aires. Eu e Francielle, Francielle e eu. Cada um pro seu canto. Dirigi-me à fila da imigraçao enquanto ela ia jogar fora o lixo de bordo, tirar a maquiagem emplastada da cara, bater seu ponto, brincar de upa upa cavalinho com o comandante, etc - sei lá o que as aeromoças fazem quando o aviao chega ao seu destino. Ainda na fila, conheci uma menininha fofa chamada Luiza. Luli era seu apelido - é mole? -, no auge dos seus 20 anos e dos 1,49M de altura, com cabelos loiros escorridos e olhos verdes. Calçava 33, exatamente o meu número. Me disse que era carioca e que estava indo visitar umas amigas na cidade de Pillar, há uma hora dali. Papo vai, papo vem, trocamos o número do rádio e saí batido para nao perder o ônibus.

Quando cheguei ao apê onde ficaria hospedado, "surpresaaa"!!! Uma festa de boas-vindas me havia sido preparada, sendo que eu nao conhecia uma pessoa sequer daquelas que me recebiam. Ok, nao era bem uma festa, estava mais para um reuniaozinha cerveja-com-amendoim feita pelos amigos de um amigo de um amigo meu, mas mesmo assim serviu pra que eu me sentisse amado por ali. Nao que eu nao me sinta amado no Brasil, é claro que sim, mas quando você se depara com uma situaçao dessas, percebe que ainda existe gente como você, que gosta de espalhar alegria pelo mundo. Sei que é meio estranho eu dizer isso depois de toda a visao pessimista que esbocei até aqui, mas quem me conhece sabe como sou uma pessoa amável e bondosa. Aos que estiverem em dúvida em relaçao a essa minha última frase, podem ir à merda.

19.9.09

visão embaçada

Estou parando de correr atrás de trabalho. Como a porra de um vício. É chegada a hora de parar de se matar pra fazer merda por aí e começar a agir como um ser humano. Quero fazer filmes, fazer peças, escrever, beber, fumar, fuder, amar... Fugir um pouco da desumanidade presente. Árdua tarefa, que deve apenas ser realizada se com leveza. O ar anda pesado. São precisos centenas de milhões de cigarros para preencher pulmões tão poluídos.

Centenas de milhões de diplomas universitários que atestam a era do tempo perdido. Centenas de milhões de sacos plásticos para levar o lixo pra bem longe dos nossos olhos. É preciso trabalhar para consumir. É preciso comer para cagar. Navegar é preciso, viver não é preciso. Bússolas são necessárias, relógios não. Remédios para um povo doente.

Estamos na roda da fortuna, como uma galáxia em meio a um universo de miséria. Ok, acho que agora estou começando a viajar pra longe demais. Tento voltar, mas não dá mais. É um caminho sem volta. Merda, que horas são? Nenhuma nova mensagem de email, scraps que nada dizem logo não precisam ser respondidos, nada. De resto, mais nada.

29.4.09

AUTO-REFLEXÃO DA SEMANA (Pra passar o tempo)

Eu vi num documentário inglês que as pessoas de hoje em dia fazem o dobro de coisas do que as de dez anos atrás. Parece que atualmente existe uma grande preocupação em se “preencher o tempo”. E apareceu um barbudo de óculos falando que essa era a síndrome da sociedade ocidental contemporânea. Daí eu fiquei pensando: os ingleses de hoje também fazem o dobro de documentários que os de dez anos atrás faziam, grandes merdas. Que porra é essa, o sujo falando do mal-lavado? ‘Pelo menos eles são bons documentaristas, os ingleses’, pensei, ‘isso eu não posso negar’. Acho que pensei isso porque simpatizei com o barbudo. Então resolvi fazer as pazes com os ingleses e seguir com minha reflexão, afinal eu também precisava preencher meu tempo de alguma forma.

Então pensei uma ou outra besteira e fiquei dando risada sozinho que nem um chinês na casa de ópio, até que escrevi no mural do meu facebook: SACHA PREFERE FICAR CHAPADÃO NA CAMA DO QUE SAIR E COMPRAR UM CARRO NOVO. E percebi que talvez eu não fosse tão parecido com as pessoas de hoje em dia assim. Talvez eu estivesse livre da tal síndrome. Mas aí fui além e concluí que minha preferência por ficar chapadão na cama era resultado de eu estar mais preocupado em evitar o mundo ao meu redor do que de preencher meu tempo com alguma atividade imbecil. E pensei também que as pessoas só inventam atividades imbecis pra evitarem a si mesmas. Daí resolvi que eu não era tão diferente assim das outras pessoas. A minha síndrome era meio diferente, só isso. Síndrome do pânico? Um pouco. Ás vezes mais do que um pouco. Síndrome de Dawn? Não chega a tanto. Às vezes passa de um tanto. Pra ser mais exato, a Síndrome de Sacha Bali. Vamos os sintomas:

1 - Você sai na rua e divide todas as pessoas que vê em duas esferas, as que tão do seu lado e as que tão contra você. Daí você é gentil com as que estão do teu lado e fica esperando um pretexto pra mandar as que tão contra você à merda. Acaba que nunca sai porrada, mas você consegue aborrecer alguém com quem você não foi com a cara e arrancar sorriso de algum sangue bom. E de alguma forma isso te deixa feliz.

2 – O telefone toca, você não atende e torce pra não deixarem recado. Daí você pega o recado, liga de volta e fala “alô” de um jeito bem animado.

3 – Você chega em casa e esmaga o gato só pra ver ele gemer, daí fica rindo que nem o exu-caveira na sessão de macumba. Ele sai correndo e só volta no dia seguinte, com fome.

4 – Todas as noites, você sonha que é alguém muito fudido e solitário andando por uma rua escura. Uns caras mal-encarados começam a te seguir e a te provocar. Você acerta o primeiro que vê e os outros caem em cima, daí você vai arrebentando um por um até que o último sai correndo, abandonando os amigos desmaiados. Ensangüentado, você entra num bar e toma uma cerveja. Todos te olham, você se retira. Uma morena de olhos azuis e seios fartos vem atrás de você e toca no seu ombro. Você se vira. Olhos nos olhos. Lábios nos lábios. Blecaute.

5 – O telefone toca, você acorda. Torce pra não deixarem recado. Bota comida pro gato. Mete o óculos escuros na cara e Ipod no ouvido e sai na rua. Divide as pessoas. Dá sorrisos e pretextos.

6 – Chega em casa. Fica pelado. Reflete. Liga a TV e vai escrever alguma besteira no computador.

15.4.09

Nisso você acredita

Conte-me uma mentira bem bonita, pra eu acreditar que a vida valhe a pena. Mostre-me como você gostaria de ser e eu me apaixono, ou pelo menos fantasio um pouco. Passe maquiagem. Atue. Finja. Acredite na felicidade que ela virá. Foi assim com Moisés ou Maomé, naquele papo de mover montanhas.

Compre “The Secret” nas Lojas Americanas com DVD de bônus por R$29,90. Divida no cartão em seis vezes sem juros, pra acreditar que alguma coisa na sua vida é a longo prazo. Reduza todos os riscos possíveis. Consulte-se com um psicólogo. Instale um airbag duplo e faça seguros. Aplicações financeiras em investimentos moderados. Limpeza dentária com flúor sabor framboesa e clareamento de seis em seis meses. Faça consórcios. Consulte-se com um psiquiatra. Arrume um emprego com carteira assinada e fundo de garantia. E vá à merda, fazendo favor.

Mas antes, leia o meu perfil num site de relacionamentos e veja como eu sou brilhante. Leia uma mentira bem bonita, pra acreditar que eu valho a pena. Apaixone-se por mim, ou pelo menos fantasie um pouco. Não sou Moisés nem Maomé, mas vou à montanha sempre que posso. Não sou Best-seller, mas estou à venda em alguma prateleira das lojas americanas e o seu cuzinho continua pregado na cadeira. Há, há, há. Você pode não rir, mas eu acho graça de tudo isso. Acredite. Ou não acredite. Mas vá à merda, fazendo favor. Se você não for até à merda, se esforce que ela vai até você. Acredite.

Agora fiquei engraçadinho. Fiquei tristinho. Mais sozinho que a magrela da passarela. Agora fiquei excitado. Fiquei maluquinho. Dançando um pagode russo na boate Kossacô. Agora fiquei cansado. Fiquei com sede. Fui pegar a última breja do congelador porque já é tarde e amanhã tem gravação, com carteira assinada e fundo de garantia. Assim como você, também compro mentiras em prestações e pago caro por elas.

8.4.09

ESTUPRO SEMANAL

Às cinco de domingo a tarde,
Quando se olha no espelho ao despertar duma noite braba
Vê sua beleza ofuscada por uma cara torta
Um cabelo desgrenhado, uma remela molhada,
E sente também sua alma quase morta.
Mas um forte homem ali se equilibra sobre as pernas bambas
E logo sorri, e canta um bluesE sai do banho novinho em folha (ou quase)
E anda pela rua como se dela fosse donaE se assenta num restaurante bar
E enquanto aguarda, sem querer, lamentaBebe uma coca, manda um bife goela adentro
E observa atento a uma garota que passaE quando ela olha, disfarça
Levanta com o vento e paga a conta,
Pega seu barco e volta pra cama.

E só acorda ao meio-dia na segunda
E sai do banho novinho em folha (ou quase),
E fuma um pouquinho e corre na praia
E fuma um pouquinho e lê,
E fuma um pouquinho e malha,
E fuma um pouquinho e fuma um pouquinho e bate umazinha e dorme.
E acorda na terça e escreve,
E fuma um pouquinho e sofre (porque ele gosta de sofrer),
E corre na praia e lê um pouquinho e malha um pouquinho e come bastante e fuma um Pouquinho porque ninguém é de ferro e bebe bastante e dorme e acorda e dorme e Acorda.
E bate umazinha e dorme.

Aí ele acorda na quinta e bate umazinha.
Aí ele fuma um pouquinho e escreve.
Aí ele e fuma.
Aí ele bebe.
Aí ele bate umazinha e decora o texto.
Aí ele encontra com os amigos e fuma um pouquinho (ta ficando chato).
Aí ele bebe e decora o texto.
Daí ele bate a ultimazinha da noite e dorme.

Daí ele acorda, toma banho, se veste, dirige, sorri, dá bom dia, come, sorri, dá bom dia, Troca de roupa, sorri, dá boa tarde, daí ele grava, daí ele espera, daí ele espera, daí ele grava, daí ele espera e dá boa noite, daí ele grava, daí ele espera espera espera, daí ele fica puto, grava mais um poquinho, daí ele fuma um pouquinho enquanto dirige de volta pra casa.

Daí ele chega em casa e olha no espelho e ele vê um homem belo. Malhadinho.
Legal, mas ele não sorri.
Daí ele só bebe e fuma bastante, com os amigos, sozinho, com umas aí, sozinho, bate variazinhas, daí dorme, acorda, dorme, acorda, dorme, acorda.
Daí é domingo às cinco da tarde.

Puta merda.

31.3.09

Fila do caixa

Você já percebeu como hoje em dia as pessoas não morrem mais? Praticamente acabou esse negócio. Hoje um cara na fila do caixa eletrônico me contou que pra cada dez mil que nascem morrem dois.
- Dois mil?
- Não, dois.
Demos um passo adiante.
- E eles tão nascendo cada dia mais lerdos, olha só. Lá no meu trabalho você tem que ver cara, eles têm preguiça de passar pela porta.
- Como assim? - eu não entendi.
- Pra procurar emprego.
Não entendi o que ele quis dizer, portanto apenas concordei com a cabeça. Daí continuou.
- Cara, eu sou analfabeto. Eu sou até burro. Mas uma coisa eu não sou: lerdo.
Virei o rosto pra ele lentamente.
- Tem cara que erra três cheques até acertar. Quando vai tirar um talão novo, o sistema não deixa porque ele não deu baixa nos cancelados. Porra, até eu sei preencher um cheque.
Demos mais um passo e daí eu tomei coragem.
- Você disse que os caras do teu trabalho têm preguiça de procurar emprego. Mas se eles já tem emprego, porque...
- É só meio turno. Eles trabalham quatro horas e ficam cansados. Preferem passar fome do que trabalhar.
- Com que você trabalha?
- Chegou a tua vez.
Fui até o caixa e, disperso, errei a senha. Tive que começar tudo de novo. O cara começou a bufar. Refiz a opração. Tirei o dinheiro. Olhei nos olhos dele e disse:
- Valeu.
- Ele disse:
- Falou.
E já sem olhar seguiu para sacar sua merreca. Atravessei a rua e entrei no prédio da minha avó.

(Continua quando eu tiver forças)

Da série: guardanapos encontrados na máquina de lavar

O garçon limpou a mesa. Tirou a travessa de arroz e trocou a garrafa vazia por uma cheínha. Fiquei o observando por alguns minutos. Era um paraíba na casa dos cinqüenta, desdentado e oleoso... a camisa branca apertava-lhe o pescoço e a calça preta pescava siri. Tinha o dobro da minha idade e ganhava um quarto do meu salário, morava provavelmente num barraco de tijolo e talvez sustentasse uma família no sertão do Ceará, mas o filho da puta sorria. Sorria feito um porco na lama e isso fazia dele um vencedor. Muito mais vitorioso do que eu, que acabava de sair de uma longa noite de autógrafos.

Mas depois de alguns minutos, ele sentou num banquinho e passou a mão na careca. Respirou fundo e baixou a cabeça. Então seu sorriso sumiu, dando lugar ao cansaço e à melancolia. Subitamente. Pude ver então o fracasso em sua melhor forma. Na forma de um sonho belo que se converteu em um sonho velho. Moribundo, falso. Ele me enganou direitinho. E enganou a si mesmo. Por todos esses anos, o desgraçado enganou a todos nós. E nós o recompensamos com as nossas próprias mentiras. Matei a garrafa, peguei uma latinha, paguei com os dez por cento e fui beber na beira do mar. Suave.

È um mundo cão

Senhor, tenha dó de mim...
Da minha doença, do meu vício, da minha soberba e ambição.
Tenha dó do mundo onde eu me criei
E do meu orgulho que sinto por nele ter sido criado.
Tenha dó das minhas desilusões
Por nunca estar satisfeito com nada,
Por nunca estar completo.
Isso não é uma música do Cazuza ou talvez seja.

Tenha dó de mim por falar tanto “que se foda” e pensar
O quão foda é a vida e que a gente se fode pra sobreviver -
Não gosto de gastar palavrão com poesia
E nem de gastar rima à toa
Mas às vezes eles começam a sair...
Soltos.
E quando isso acontece, é sério.
Quando o teclado escreve sozinho, é bom.
Quando a lágrima não escorre, é o cotidiano.
E a noite passa com você dando risadas com vídeos baratos,
Com você fodendo mulheres baratas,
Você fazendo um trabalho que é um barato...
Curtindo baratos
Que no final saem caro.

Mas que se foda.
Porque já é tarde e logo mais o sol vai sair
E você vai abrir aquele sorriso colorido,
E vai dar um alô a quem cruzar pela rua,
Você vai ser um cara legal
E todos vão gostar de você,
Você vai gostar de você,
Você vai se amar.
Quero dizer,
Vai olhar para o espelho como quem diz eu te amo ou
Eu te odeio.
Eu quero passar o resto da vida ao seu lado.
Vamos nos foder juntos,
Vamos nos foder
Eu e você,
Meu espelho,
Minha tela de computador,
Minha pulga atrás da orelha.

Vamos procriar as pulgas.

18.3.09

Madrugada negativa

Agora, na madrugada, eu tive um lapso. Estava em queda livre no meio de um sonho, acordei num salto e lembrei de você. Quis romper com a normalidade, inventar uma arma e te sequestrar, te apertar contra o meu peito até nos dissolvermos. É como se eles estivessem contra nós, sabe? Como se a gente junto fosse belo demais para existir. Eu quero que essa beleza exista também fora da minha cabeça, mas logo o dia vai amanhecer e será como se eu nunca tivesse sonhado, como se a vida fosse mesmo pra ser apenas o que é. Uma derrota. Todo dia, quando o dia começa, é como se eu tivesse perdido o jogo. Às vezes, quando a noite acaba, sinto como se o tivesse ganhado. Mas só às vezes. E mesmo assim, eu permaneço sorrindo.

Se você é um anjo, eu devo ser uma espécie de sombra. Você é uma fada, e eu não sou tão verde quanto um duende. Você me ilumina, daí eu brilho muito mais do que qualquer coisa nesse mundo, e eu fico com receio de dizer que te amo. Acho que você vai sumir no céu feito fogos de artifício. Sabe o que é? É porque hoje em dia, tudo me soa meio artificial...

24.2.09

Nota da terça-feira de cinzas

Agora, é como se meu corpo estivesse dividido. A metade de cima quer um grande amor, uma deusa, uma rainha. A metade de baixo quer sexo.

Agora, é como se minha alma estivesse dividida. A metade da direita quer prosperidade, quer luz, quer construir um lar na areia da praia e viver de amor e arte. A metade da esquerda quer se acabar junto com o mundo em pleno carnaval.

Agora eu fiquei quadriculado. Preso. Preciso da sereia que vá juntar meus pedaços, mas já desisti de procurar. Preciso me sentir inteiro novamente, mas tenho a impressão que agora só no ano que vem. E ainda é só fevereiro.

11.2.09

Enrolo um cigarro perfeito, o que não é da minha natureza, segundo certos amigos meus. Eles dizem que a prática leva ao vício, certo? Errado. A prática leva à perfeição. Não sei como, sento na privada e cago em forma de caracol.

7.11.08

Rabiscos borrados que encontrei num antigo guardanapo

No verso estava escrito:

"LABORATÓRIO é coisa de rato.
Eu sou um gato,
no pleno sentido da palavra.
O que me mata é o que está atrás da curva,
E não na queda, quando venho do alto."

Não entendi nada. Ao lado, tinha uns desenhos meio mal feitos: um rosto que parecia ser o de Bukowski, uma gostosa com os peitos de fora e um monstro travado de pó. Ok. Virei a página e comecei a ler, com dificuldade, as palavras miúdas...
"Todos falavam asneiras, enlouquecidamente. Asneiras respeitáveis - pelo menos pra eles, que pareciam respeitá-las. Mas aí um pernilongo roubou minha atenção. Ele era grande e lerdo, e cambaleava sobre o vento provocado pelo ventilador de teto. Tentei pegar o filho da puta várias vezes, mas ele tinha o poder sobrenatural de desaparecer e reaparecer em outro lugar totalmente diferente. O escroto se teletransportava, cansei dele. Já havia desenhado em uma das faces do guardanapo, até escrito um poema meio sem sentido - pelo simples hábito de brincar com as palavras -, e tentado flertar com as barangas da mesa ao lado. Simplesmente passei meia-hora da minha vida tentando chamar a atenção delas, estando imóvel e em silêncio, mas por algum motivo não funcionou. Elas me ignoravam impiedosamente, conseguiam ser mais escrotas que os asnos da minha mesa e o mosquito mutante. Então resolvi dar mais atenção à minha cerveja, parecia minha mais fiel companheira da noite - por mais que eu matasse os copos num gole, as garrafas não acabavam nunca. As bolinhas subiam do fundo à superfície em menos de dois segundos, parecendo asteróides no infinito do espaço sideral. Elas subiam incessantemente, transportando-me para outra dimensão de tempo e lugar. Tudo estava indo bem nas galáxias amarelas, até que o pernilongo dos infernos resolveu me picar. Não sou do tipo que simpatiza com inseetos, mas simpatizei com o puto, confesso. E ele me traiu impiedosamente. Meu único companheiro além das bolinhas, meu camaradinha de asas... tudo bem. A baranga do lado esquerdo me olhou de rabo de olho, comentou alguma coisa com a amiga e depois me fixarou o olhar. "Opa! Talvez eu ainda foda hoje, afinal." Levantei para ir ao banheiro e cruzei com ela, que, nervosa, desviou o olhar e fingiu que não me viu. Enquanto mijava, pensei no que poderia dizer a ela. Nada veio à mente, alguém deu três socos na porta e eu tive que sair. Estava cruzando o balcão quando... merda, acabou o guardanapo!"
Até hoje não sei que fim teve aquela noite.

7.2.08

Carta de suicídio da quarta-feira de cinzas

I
Neste momento, homens em algum lugar do mundo estão trabalhando em máquinas de fazer salsichas, apertando parafusos em pára-choques de carros, lacrando garrafas de cerveja. Eu escrevo através do computador. Todos estamos sempre produzindo alguma coisa, construindo alguma coisa, mesmo que aquilo só faça sentido pra nós mesmos, ou pra nós e mais meia dúzia de babacas. O homem foi feito à imagem e semelhança de Deus ou vice-versa, e assim como nós, ele gosta de jogar boliche de vez em quando. Manda uma tsunami dos infernos e mata milhões numa só tacada. Nós bebemos cerveja, comemos salsichas, dirigimos carros, lemos qualquer merda e passamos a noite inteira derrubando garrafas de madeira que se erguem sozinhas. Estou me referindo ao boliche, caro leitor. Estamos construindo e destruindo, o tempo todo. Inclusive a nós mesmos, e Deus não foge à regra.

II
Tomamos um ácido em pleno carnaval e nos tornamos as pessoas mais felizes do mundo, suamos e babamos, mordemos os lábios, ou então batemos punhetas sucessivas vendo as putarias mais bizarras do mercado virtual, ou então comemos morango com chantily depois do jantar. Por algum momento, somos cem por cento emoção. Depois, exauridos, nos derretemos em tristeza e melancolia. Nunca entendi porque Deus não criou no cérebro algum lugar que armazenasse a emoção - lembramos apenas dos risos, das caretas, nunca das emoções. Pelo contrário, ficamos com a rebordosa, com o day after do que quer que se tenha usado, com as vacas magras de endorfina. No final, são sempre elas, as drogas. Saber controlar as substâncias que circulam pelas nossas veias é a grande arte de viver, somos alquimistas dos nossos próprios corpos. As drogas, naturais ou sintetizadas em laboratórios, são elas que nos levam aos altos e baixos, aos momentos em que nos sentimos realmente vivos.

III
O que diferencia o aparafusador do parafuso? Geralmente nada. Geralmente o homem é alguém que esqueceu o porquê de estar vivo e passou a obedecer passivamente ao calendário e à bíblia, ou a bula da pomada pra hemorróidas. As drogas, naturais ou sintéticas, corporais ou externas, elas correm a um nível constante nesses camaradas. E esse nível constante é o que inutiliza o aparafusador, o que o transforma em parafuso. Pra que serve um parafuso? Pra nada, a não ser pra prender pára-choque, que por sua vez também não serve pra nada, assim como os carros a que eles estão presos, assim como os computadores que nós usamos. São máquinas, utensílios que afastam o homem de sua função primeira, que é a de viver, a de equilibrar as drogas que conduzem as nossas emoções. Como eu cheguei a essa conclusão, só Deus sabe.

IV
Bem, voltando a Deus – estou falando bastante dele hoje -, podemos dizer então que nós, assim como o filho da puta que nos criou, somos cartesianamente divididos em duas esferas: as substâncias e os mecanismos. Somos basicamente drogas e máquinas; as drogas são os combustíveis do nosso aparato físico e mental, são o que nos faz seguir construindo e destruindo idéias e coisas. Eis a essência humana e a essência divina. Profundo pra caralho, vai acompanhando.

V
Quimicamente desequilibrado, sigo escrevendo como se houvesse algum amanhã, como se alguém fosse de fato ler esta merda. Mas na verdade toda esta construção tem seus dias (minutos? segundos?) contados, já que a qualquer hora essa máquina pode sucumbir e levar todas suas informações pro brejo, ou ainda o interlocutor que a constrói pode resolver deletá-la, ou ainda o interlocutor que a constrói pode morrer, ou pelo menos deixar de ser a mesma pessoa, ou sei lá, porra! O que quero dizer é que esta é uma carta de suicídio, logo eu estou prestes a deixar de existir, e assim como eu, as minhas idéias. Ou não, afinal é pra isso que serve o computador, certo? Caro leitor, como você pode ver, começo agora a me confundir (só agora?). Acho melhor abrir mais uma cerveja. Bem, é isso. Espero ter enfim destruído quem eu era quando comecei a escrever esse texto, aliás foi pra isso que eu comecei a construí-lo. Pra passar o tempo enquanto as endorfinas não voltam ao seu nível normal. Continuo fraco, mas pelo menos agora tenho sono, espero amanhã acordar sendo uma outra pessoa.

17.8.07

O fim (As Portas) - Releitura

Este é o fim.
Nosso grande amigo,
Nosso único amigo,
O fim.
De todos os nossos planos, o fim
De tudo que existe, o fim
Da segurança e da surpresa, o fim.
Vamos, que o ônibus azul nos espera.

Ei, motorista, onde você está nos levando?
Ei, motorista, pare o carro que eu quero sair!
Papai! Papai! Papai! Deus do céu, eu não aguento mais!

Se liga. Agora tem alguém vindo em sua direção, e não há nada que você possa fazer a respeito.
O assassino acordou antes do amanhecer, botou suas botas,
Fez uma careta pros seus antepassados,
E foi andando pelo corredor.
Ele entrou no quarto em que sua irmã dormia, e então...
Fez uma visita ao quarto do irmão, e então...
Andou até o fim do corredor, e...
E entrou por uma porta... E olhou por dentro.

Velho escroto? Sim, filho? Eu quero te matar.
Maezinha querida? Eu... Eu quero te foder!

Este é o fim.
Nosso grande amigo,
Nosso único amigo,
O fim.
Mê dê uma chance, amor.
Me encontre no fundo do ônibus azul.
Dói te ver livre agora, amor,
Mas você nunca esteve ao meu lado mesmo.
Você nunca existiu, amor.
Então chegou o fim das gargalhadas e das pequenas mentiras,
E de todas as noites em que tentei esvanecer.

Este é o fim.

16.8.07

Caninos Urbanos

Como eu, como você, como quase todos hoje em dia. Matilhas confusas. São poucos os que ainda têm o privilégio de desfrutar um cotidiano repleto de coisas reais, como uma praia, uma floresta ou uma cachoeira. Estamos presos num labirinto de edifícios e avenidas, caminhando em círculos, em busca de um horizonte cada vez mais distante. Uivamos para uma lua que desapareceu atrás de nuvens de fumaça pós-indunstrial. Seguimos hipnotizados pelos outdoors e buzinas de uma terra firme, como se tentássemos nos equilibrar sobre o casco de um navio fantasma.

Perdoe minha depressão, mas este é o nosso atual paradeiro.

Eu gostaria de estar arrastando pedras pelo deserto, como faziam os avós dos avós dos meus avós. Cães do deserto. Devia ser mais divertido do que passar o dia em filas de banco, em filas de xerox, em filas de cartório. Se não me engano, as filas foram inventadas pelas hienas que chicoteavam meus antepassados a fim de alimentá-los com rapidez, tornando a jornada de trabalho mais produtiva. As filas foram fazendo sucesso ao longo dos séculos, e agora, entre os caninos urbanos, estão mais populares do que nunca. Nem se usam mais chicotes. É o chamado reflexo condicionado: você espanca o totó umas 10 vezes por ele ter cagado no sofá, e toda vez que subir no sofá, o cú do totó ficará bem apertadinho. Somos, na grande maioria, totós. Fomos espancados geração após geração, e agora prezamos por uma boa tosa e ração de qualidade. Temos conquistas e fracassos. Sofás, para nos confortarmos sobre, e bosta o dia inteiro fedendo dentro da cabeça. Só nos resta cumprir os compromissos anotados em nossas agendas, tentando disfarçar o cheiro.

A questão é: por que o totó não foge de casa e fareja sal até encontrar o oceano? Por que os desertos continuam tão desertos?

Porque é mais cômodo ficar deitado no sofá.

8.8.07

Pedrinho véve

No azul do teu olhar, há
uma preocupação que se perde.
Um sorriso aparece enquanto o copo oscila, vazio e cheio,
entre o cair do luar, um partido alto mal-feito, há
um zuar dum defeito qualquer que se perde.
No azul do teu olhar, a
poesia aparece sem se apresentar
o clima ameniza
e se desfaz o fardo azul no teu olhar.
O amarelo, verde fica em cada carranca que cruza,
mais um problema se esconde na caçapa,
e mais uma noite se ganha em sinuca,
em bituca, num boteco da lapa,
e antecede o azul do mar da manhã seguinte
que brilha e jaz
na paz do teu olhar.

Vida longa ao sorriso, hermano!!
Sigo respirando sob a queda da cachoeira, a gente se vê no fim do rio...

23.7.07

Pretexto

A mãe dele veio visitá-lo agora a noite, na casa da avó dele. A mãe dele é uma mulher de cinqüenta bem conservada, sã de corpo e alma, divorciada do seu terceiro casamento e que, por sinal, anda bem carente. Ela veio com o pretexto de pegar algumas roupas para viajar. A avó dele é uma mulher de oitenta e poucos, depressiva e hipocondríaca, mora na França, é viúva e, por sinal, anda bem carente. A mãe dele está indo encontrar com a avó dele, na França. Elas vão passar um tempo juntas. Uma parece estar precisando muito da outra. A pergunta é quanto tempo vai levar até que elas comecem a se estrangular.

Ele tem 26. É bonito, mora em ipanema, vem sendo solteiro desde sempre e, por sinal, anda bem carente. Se você estiver interessada, apareça na casa da avó dele, numa madrugada, na Rua Paul Redfern, 52/401, ou melhor, adicione ele no orkut antes. Assim ele saberá como você se parece e como você tenta se vender para o público leigo. Em seguida, adicione-o também no msn. Depois pegue seu telefone. O endereço. Ops. Você já sabe o endereço, então esqueça todos os outros pretextos e apareça na casa da avó dele, sem aviso prévio. Ou nem apareça, não vai perde grande coisa.

O que sempre lhe chamou a atenção foram os pretextos. Os pretextos que as pessoas usam para fazer o que querem fazer, a forma como se desviam de seus caminhos sem se dar conta, enfim, a fuga. Todos fogem de alguma coisa. De algo a que temem, algo que num passado muito longínquo não tenha dado certo, talvez até numa outra vida. E a vida cotidiana é feita de uma sucessão de pretextos que você cria para te desviar da tua coisa. Da tua questão. Como por exemplo, o português do botequim que olha o relógio para não ter que te encarar enquanto você cata moedas pra comprar um cigarro. O tempo é pretexto pra ele. Ou sua mãe, que vem visitá-lo sob o pretexto de pegar algumas roupas. Ou sua avó, que te liga, por engano, duas vezes por semana.

Num mundo onde há cada vez mais gente e elas valem cada vez menos, tudo pode ser pretexto para evitar que o outro pense que você está carente e precisa dele. A verdade é que estamos todos cada vez menores, e um simples abandono pode te fazer desaparecer do mapa. Evaporar. A carencia nos fode, nos empurrando ainda mais para solidão. A gente não se expressa direito. Tem medo um do outro. Procura refúgio o tempo todo. É cada vez mais raro um encontro que se realize pelo simples prazer do encontro.

Ele sabe disso. A mãe dele, em algum lugar de sua cabeça, sabe disso. A avó acha que sabe disso, mas esquece o tempo todo e põe a culpa no tal do Alzheimer. Por isso, ele escreve. Pra se lembrar disso, da próxima vez que sair na rua. Pra que sua mãe leia e pense a respeito. Pra que sua avó, um dia, do céu, se orgulhe do que seu neto escreveu na Terra. Ele escreve pelo bem dele e do resto da humanidade. Ou todo este texto é um mero pretexto pra que ele se ocupe e fuja mais uma vez da carência e da solidão.

SOLTANDO O VOLANTE

De vez em quando você pensa que talvez... Mas não. Não existe talvez. O seu destino foi traçado muito antes de você começar a ter problemas, e não é agora que eles já estão amadurecidos que as coisas vão começar a melhorar. Esqueça qualquer esperança. Sua alma já está podre, você não tem salvação.

Você está dirigindo pela cidade. As pessoas passam por você em câmera lenta, e quando estão a um quarteirão de distância, deixam de existir. O que mais machuca ao longo da viagem é ter que lidar com o desaparecimento das belas mulheres. Elas se esvaem, tanto quanto os postes e os canteiros sobre as calçadas. Você permanece recostado no assento, sentindo o espaço vazio no banco do carona. Não tem nada pra ser pensado sobre isso, você pensa, e foca os olhos no horizonte. Sua visão é a de que a rua é infinita, e ao longo dela há uma sucessão de sinais que mudam de cor ordenadamente.

Então o próximo sinal lhe avisa que é hora de você parar e esperar. Você coloca em ponto morto e freia. Um carro emparelha com o seu. Dentro dele, há um casal feliz, feio e feliz, sorrindo e dizendo agrados um para o outro. Você fecha o vidro pra não ter que lidar com a situação e segue viagem assim que o sinal se abre. Pelo menos esses têm um bom motivo pra deixar de existir.

Você segue sem estabelecer um destino específico, mas ainda assim ele existe e foi escrito antes de você pensar em fazer escolhas. Portanto, não se preocupe. Está tudo certo. Você não fez nada de errado, você simplesmente TEM que passar por isso. E ponto final. Esse é o SEU caminho.

Mas aproveite pra vangloriar-se de todas as suas realizações. De todas suas notas altas. Dos trabalhos que você fez. Das mulheres que você comeu. Tire fotos de todos esses momentos e prenda-os no espelho do seu banheiro para que você possa revivê-los todas as manhãs, antes de sair às ruas, e todas as noites, antes de voltar pra cama. Isso te dará coragem pra encarar as pessoas e pra sonhar com o dia de amanhã. Quando te olharem na rua, no trabalho, nas rodas de amizade, verão nos teus olhos a força de um vitorioso e te reconhecerão como um homem feliz. E como todos gostam de estar ao lado de pessoas felizes, talvez então você arrume uma bela mulher e seja verdadeiramente feliz... Mas não. Não existe talvez.

Você gira o botão do volume do rádio pra não ter que pensar a respeito. Você rodeia a agenda de telefones gravada no celular. Você passa por um inferninho cheio de mulheres vulgares e bêbadas e pensa que talvez... Ok, talvez nesse caso exista um talvez.

***

Você acorda e olha o relógio. 13:47. Roupas e papéis espalhadas pelo chão. Duas camisinhas usadas também. Você lava o rosto e em seguida ergue a cabeça. Pregadas à borda do espelho, os melhores momentos da sua vida. Você e seus pequenos amigos dos quais você mal lembra os nomes, uniformizados, tocando a zorra no último dia de aula da sétima série. Você e seu chefe velho e barrigudo, ambos engravatados, sorrindo e apertando as mãos. Você e aquela ninfeta que você tirou o cabaço e que voltou pro bucha do namorado na semana seguinte. Todos os personagens secundários e os figurantes da farsa que você anda vivendo. Você vai fazer café pra não ter que pensar a respeito.

Você finalmente percebe que seu cotidiano é realizar uma sucessão de tarefas pra não ter que lidar com a própria desgraça e que anda se esforçando para acreditar que está caminhando em direção à salvação, mas a tal estratégia simplesmente não está dando certo. Não está, caralho! Os sinais de trânsito continuam surgindo no horizonte e o marcador de gasolina está cada vez mais baixo. O carro vai parar a qualquer momento e tudo que você pode fazer é trocar o óleo de vez em quando. Se é que você me entende.

***

Enquanto a estrada segue passando em alta velocidade, você procura mais pretextos pra cobrir o tempo vazio. Pra fugir do silêncio. Pra calar a própria consciência. É sempre assim. O mundo à sua volta pára, e então sua cabeça começa a girar. Depois de um tempo, o mundo volta a girar e você acaba ficando enjoado. Você passa a vomitar palavras pouco amorosas nas pessoas. Então volta a dar valor ao silêncio, mas aos poucos o silêncio vai se tornando tedioso e depois assustador, daí você busca algo pra se fazer, como dirigir a esmo pela madrugada.

Até que mais um belo dia amanhece, com uma foto estampada na capa dos jornais da sua cidade: o seu carro espatifado num poste. Um casal acorda, lê a notícia de que você avançou o sinal e lamenta. As pessoas que te conheciam lamentam mais ainda. As pessoas que conheciam as pessoas que te conheciam lamentam um pouco menos. Você descansa em paz. E os carros, na sua cidade, continuam obedecendo aos sinais de trânsito, sem estabelecer um destino específico.

29.10.06

Contrastes

Em busca de luz, me arrasto pela escuridão. Por entre o vale da carne, iluminado apenas da penumbra de mercúrio que assola o asfalto, vago, de bar em beco, de vampiro em vampira, mantendo contato visual com quaisquer transeuntes que cruzem meu caminho dentre as trevas. Degusto este universo. Embriagado, sempre. Há sempre uma alma carente para se confortar em meus braços, para acomodar meu sexo. Às vezes tremo. São calafrios que vêm de algum outro lugar que desconheço. Espere. Talvez eu conheça este lugar, talvez tenha apenas me esquecido. Espere. Agora eu me lembro. Lembro-me da luz, branca. Era um único feixe de energia que rompia todas as barreiras que, agora, no escuro, me parecem tão nítidas. O raio onipresente e constante transcendia a matéria, e tudo levitava, contrariando a gravidade, como num sonho. Espere. Era um sonho. Não, não. Isso foi antes de eu ser cuspido daquele buraco quente e úmido para esse mundo frio e agitado. Foi antes ainda de eu ser cuspido do saco do meu pai. Está tudo embaralhado na minha cabeça. Droga, onde eu deixei a garrafa de vinho?

21.7.06

Anúncio de jornal da seção de obituário

1

A teoria é o caos
de quem estuda a lição,
do autodidata que é
quem se dá o dever
de poder perder.
E que gosta,
degusta,
e ganha.

Álcool ou Sativa:
hora divide,
outrora multiplica,
ilude se quiser
o matemático da vida
que é cientista de Deus,
antropólogo de si,
pastor
e alquimista.

2

Na prática,
a ordem nasce da jubilação,
sobre o xingamento do repetente,
injustiçado, descontente,
que se torna fumante e acende
para parar de pensar.
Na polícia que prende,
que é bandida e refém,
no operário que puxa
o saco do outro,
e no mendigo que passa e que deita
no fundo do poço do elevador de serviço
de um alto edifício
cuja cobertura dá de frente pro chão.

3

Tá bom, ok,
nem teoria, nem prática,
um pouco dos dois e vamos ao que interessa:
ao lado escuro da lua,
do outro lado da rua,
que é o lado escuro da morte,
a vida,
uma deserta via expressa.

4

Ser um suicida
é não ser mais um assassino
armado de escudo pra matar o destino
e morrer na garupa.
Apenas sentar sobre a vida,
atrás dum cinto seguro, dum tecido escuro,
em cima dum assento macio,
mixuruca.

Ser só o carona,
no colo dum caminhoneiro gentil chamado papai,
um ignorante a mais de mil,
distante anos-luz de mim.
Deslocado do seu pólo,
do habitat original,
hoje funcionário duma multinacional,
adestrado em canil.

Dirigindo sobre pedras, sobre lama, sobre mato,
vagando madrugada adentro,
infeliz, desgraçado,
dentes pontudos e podres.
É nossa genética, nossa biologia, nossa sociologia,
um pasto tão desgastado
que o próprio gado pereceu sobre.

5

Portanto só me resta dar a mão
a outro aprendiz na contramão,
a outro repetente
que também tente e que me entenda,
de repente outro fumante
que também acenda e se levante,
que também enfrente
a polícia bandida e refém,
o operário puxa-saco
e o mendigo no poço.

Procuro uma jovem suicida
disposta a soltar o seu cinto,
a acelerar sorrindo e a saltar do caminhão.
Alguém com um pingo de esperança,
de fé, de confiança,
que saiba que o chão não nos pára, não.

Procuro urgentemente uma jovem suicida
que renuncie a prata pra quebrar a cara.
Algum corpo sem herança e sem lembrança,
que flutue enquanto caia.
Se leres este anúncio
me procure e entregue o ouro,
de a mão na caça ao tesouro
a uma criança desconhecida,
desprotegida,
sem pai.

31.5.06

No bar do fim da minha rua

Mais uma noite de insônia. Acendo a luz do abajour e observo por alguns minutos este quarto frio e vazio, ao som das gotas que se esmagam contra a janela. Abro a gaveta da cabeceira em busca do tabaco. Já está quase seco. A caixa de papéis-de-seda está vazia, obrigando-me a levantar da cama empoeirada e a me arrastar até o bar do fim da minha rua. Metade de mim comemora - missões são sempre bem-vindas nos momentos de tédio. Outra metade lamenta; é a metade do ócio, da preguiça e da inércia, a mesma metade responsável pela minha solidão neste quarto estreito. Do guarda-roupa tiro o mesmo casaco listrado, chinelo de dedo e gorro de lã que formam o tradicional uniforme das noites mal-sucedidas, em que a vida se anuncia, mas não acontece. Uniformes me incomodam.

Passos desapressados sobre o cimento molhado. Desvio de poças, bitucas de cigarro e de alguns mendigos petrificados nos cantos da calçada. Uma menina loira vem ríspida em minha direção. Ela é branca feita a parede do meu quarto e mexe aflita no celular. Está distante do mundo. Pisa nas poças, nas bitucas e quase tropeça num mendigo. Ela vai passar por mim. Gostaria de lhe dizer qualquer coisa, mas nada me vem na cabeça. Alguns segundos antes de nos cruzarmos, esvazio o pulmão para em seguida respirar o mais fundo que posso, e assim fruir do odor de cada partícula do seu perfume. Quero agora abraçá-la com força. Chorar junto a seu peito. Morrer ao seu lado.

Mas ela segue andando, e tudo seu que resta é o som compassado dos saltos sobre o chão, que aos poucos decresce até tornar-se inaudível. Ela já não existe mais. Sigo o caminho que vinha trilhando, cujo destino encontra-se no bar do fim da minha rua. É o único ponto de luz e cochicho ao longo da via. Lá, dois PMs conversam e um paraíba do outro lado do balcão lava copos - se uniformes me incomodam, fardas me provocam fobia.

Entro no estabelecimento sem deixar que transpareça a iminente tensão que do meu corpo se apossa, e peço ao paraíba, em tom gentil e seguro, os papéis-de-seda de rótulo cinza que estão sobre a vitrine próxima ao caixa. A requisição faz o momento suspender-se no tempo; logo me conflagro suspeito de crimes que não venho cometendo já faz alguns meses.

- Pra quê a seda? – pergunta um polícia.
- Que diferença faz? – retruco eu. O paraíba assiste atenciosamente à cena.

A troca cínica e mútua de agressões se estende até tornar-se insustentável. Eles precisam manter a postura. Eu só busco qualquer emoção que me resgate da apatia, mesmo que ela me leve ao sofrimento extremo ou, na melhor das hipóteses, a uma experiência tangente à morte. É preferível desencarnar do que voltar à já conhecida masturbação física e mental que o quarto frio costuma favorecer.

Um tapa no rosto marca os novos rumos da conversa. Seguido de algemas e terrorismo verbal, sou impetuosamente encaminhado ao banco traseiro da viatura e de lá levado à delegacia mais próxima sob a devida acusação de desacato. Mas logo me assombra a desilusão; no cenário policial, encontro o mesmo vazio e a mesma frieza do quarto que dera origem à odisséia da noite – apenas um delegado, escondendo por trás da barriga e dos bigodes sua existência desesperançosa e pobre. Nem uma dupla de prostitutas histéricas, nem um grupo de gringos vitimizados, nem mesmo o espancamento de um ladrão qualquer de galinhas de fato ocorria para acalentar meu espírito. E aquela noite que parecia convergir para algo emocionante e arriscado acabava agora na evolução do interrogatório agressivo e burocrático iniciado no bar do fim da minha rua.

Minha atitude mantém-se, em tom cínico e provador. Os dois gorilas atrás de mim se entreolham e murmuram, aguardando o sinal de seu superior para atacarem-me como fosse eu a causa de sua miserabilidade. Logo ele vem – o sinal -, e com ele os socos e pontapés pelos quais eu vinha aguardando já fazia pelo menos meia-hora. Azar o meu eles não terem fôlego para manter-me ocupado até o amanhecer do dia; mal o ponteiro havia rodeado por duas vezes o relógio na parede do hall de entrada e eu já estava livre, sem nem antes ter que assinar uma ficha criminal que pudesse servir de souvenir da minha passagem pelo batalhão. Com um sorriso no canto da boca, peço ainda ao delegado a gentileza de uma cela para passar a noite, a ser compartilhada com outro meliante qualquer de sua livre escolha. Mas meu requisito não é atendido, e nem mesmo recebo uma justificativa para tal.

Coberto de sangue e hematomas – não tanto quanto desejara -, volto eu para casa, percorrendo com os mesmos passos desapressados este cimento molhado. Desvio das mesmas poças, bitucas e mendigos, por quarteirões e mais quarteirões a fio até cruzar com o bar do fim da minha rua. Ponho a mão no bolso, a seda continua lá. Pelo menos isso.

Tiro o casaco, o chinelo e o gorro. Deito na cama. Enrolo um cigarro. Risco um fósforo e observo o deslizar da chama pela madeira, sentindo o calor se aproximar. Fecho os olhos e resisto até onde posso. Solto o palito carbonizado. Risco outro, e, agora sim, acendo o cigarro. Entro em dialética: punheta, devo ou não devo? A metade da preguiça leva vantagem. Levito.

11.4.06

Sinal

De pé
Parado
Pele grossa soldada no chão
Paredes
Pessoas
Olhos fixos atravessam o muro

Travessias
Travessuras
Transtornos

O mendigo não quer se finar nem consegue existir
Apenas espera o sinal abrir

Das barbas nasce um cigarro
Fumaça defuma solidão
Pulmão some acaba
Suicídio homeopático

Não gosta de bicho não gosta de chuva não gosta
Carro
Faz barulho
Não gosta do dia
Da noite não gosta
Gente
Detesta

O mendigo não pode chorar nem sabe sorrir
Apenas espera o sinal abrir

Em pé
Imóvel
Mãos estendidas pro céu
Cuspes
Moedas
Cabeça afundada nos ombros

Pés enfaixados
Cheio de trapos
Se apóia onde dói menos
Mal cheiro
Putrefação
Afasta as pessoas em volta

O mendigo não se faz isolar nem tenta se unir
Apenas espera o sinal abrir

Um camaleão
Cinza como asfalto
Humanidade no fim
Azul de fome
Molhado no breu
Cor de areia
Em dia de sol
Verde-esperança
No fim da humanidade
Um cidadão

Alma
Vida
Carma
Sorte
Calma
Sina
Arma
Morte

O mendigo não tenta falar nem se faz ouvir
Apenas espera o sinal abrir

Tempo passou
No último suspiro
Mendigo falou ouviu sorriu chorou uniu.
Se isolou,
Existiu.
Enfim, finou.
E o sinal abriu.

6.4.06

Pomba-Gira, mulher do Cão

Sou um cão, sem origem nem destino.
Um vira-lata clandestino,
pois assim suncê me trata.
Não fosse teus olhos de cigana e teu jeito inocente,
talvez não me sentisse assim, tão diferente.

Recorrendo à astrologia dos horóscopos de revista,
percorrendo as esquinas com a alquimia dos despachos,
enfeitiçando inutilmente uma bruxa endiabrada,
Pomba-Gira, mulher do cão,
com sua terrível gargalhada.

Mas ainda resta a mim
um pingo de defesa:
meu olhar, que ao mesmo tempo,
é orgulho e armadura,
amparo, escudo,
dragão, espada.

É o que resta do passado
a alguém que perdeu tudo,
que não pensa no futuro
pois não quer perder mais nada.

E essa arma, sob a lua,
desarma tua magia -
talvez seja a companhia
de um tal de Tranca-Rua.

26.3.06

Vadios

Vadia.
Talvez você seja
A magia negra duma feiticeira maldita
Transformada em sereia para causar naufrágio.
A tempestade que fez de mim marinheiro.
A maldição que me deixou saudade.

Jogou-me nos fundos dum bordel de cais:
O refúgio dos marginais,
Dos andarilhos locais,
E dos marujos de primeira viagem.

Vadio.
Talvez eu seja
O espelho no teto sobre o leito vazio,
Refletindo o estado que você me deixou.
A imagem do teu corpo com o cheiro do teu sexo,
E o riacho do teu gozo, que tanto me devastou.

Vadia.
Que chupa e que morde
E que deixa uma marca.
Te amo e te odeio,
Como um vício.
Eu sou o viciado que te alimenta.
Vadio.

25.3.06

Tragédia em 5 Atos

1
Prédios emergem das pedras
pro alto, pra perto da lua.
Às seis da madruga,
dois velhos embaixo
deitados na rua,
na porta dos botecos de esquina,
na quina entre o aço e o asfalto,
no silêncio entre os sons de buzina.
Entre espaços de tempo,
nos intervalos da vida.

2
Se ao meio-dia sonham,
são loucos
que aos poucos morrem
sem nota em jornal,
feito pedras que dormem.
Choram se acordam,
se dissolvem em lama,
cheiram mal
os figurantes da cena.
Não querem nem fama,
existir apenas.

3
Os prédios emergem do plano,
onde, sob pressão e pressa,
reside e transita o império.
Impera o ódio
que desloca o sol,
a loucura governa
sobre onde tem chão.

4
Os velhos logo se tornam
novos mendigos,
que serão removidos
por meninos em trapos
que nascem e crescem
no meio da noite,
que vivem e morrem
nos sacos de lixo.
As latas serão recicladas,
o chorume, apodrecido.
Os idosos perecerão dos males
que os jovens terão superado.

5
Nada se perde,
nada se cria,
a urbe defeca
e a miséria absorve.
O burgo vomita,
a barbárie incorpora,
e a vida se segue
sem dar qualquer nota
aos velhos na rua,
às seis da madruga,
debaixo dos prédios
que emergem do asfalto,
crescendo pro alto,
pra perto da lua.